POR QUE O INOVATUR 2026 ESCOLHEU O TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA NO MORRO DA PROVIDÊNCIA?
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Dar voz a quem vive a realidade do território é o ponto de partida indispensável para qualquer transformação real e duradoura. Na mais recente etapa do projeto Inovatur, fruto da parceria estratégica entre a Secretaria Municipal de Turismo e o Cápsula – Centro de Inovação do Senac RJ, foi realizado um workshop imersivo e colaborativo dedicado ao mapeamento de desafios locais.
Mais do que identificar gargalos, esse encontro teve como propósito fundamental promover a escuta ativa e a cocriação com os atores que constroem, no dia a dia, a força da comunidade. Afinal, reconhecer onde doem as fragilidades estruturais e onde residem as oportunidades de inovação social é a base para consolidar um Turismo de Base Comunitária sustentável e genuíno.
O Rio de Janeiro carrega em cada morro, um patrimônio cultural e comunitário singular. O turismo de base comunitária nasce dessa identidade, na qual a história viva, os saberes tradicionais e a resistência local formam a verdadeira essência da experiência carioca. A inovação social não surge de modelos importados ou imposições técnicas; ela germina do sentimento de pertencimento daqueles que habitam e protegem seu território. Valorizar o protagonismo local significa entender que moradores, guias e empreendedores não são meros beneficiários de projetos, mas sim os arquitetos das próprias soluções do lugar onde vivem.
Desenhado sob metodologias de inovação centradas no ser humano e na construção coletiva, o workshop de mapeamento de desafios conectou facilitadores técnicos, lideranças e moradores em uma dinâmica humana e integradora. A jornada teve início com o World Café, uma prática de cocriação em rodadas que combinou momentos de reflexão individual e escrita em postites com o compartilhamento coletivo e a escuta ativa. Esse formato foi fundamental para romper silos de pensamento, alinhar os participantes e extrair o melhor da inteligência local, gerando um rico acervo de visões sobre o território.
Em seguida, o encontro avançou para a etapa de organização e síntese, iniciando a convergência das ideias. Por meio de uma facilitação atenta, as diversas contribuições foram agrupadas por afinidade temática em clusters numerados, transformando uma grande massa de informações em padrões estruturados e diagnósticos claros. Com o panorama devidamente organizado, deu-se início à priorização dos gargalos mais críticos do território. Utilizando a votação visual por adesivos (dot-voting), os participantes definiram as prioridades e sintetizaram os problemas em dois Cartões desafio para cada perspectiva trabalhada, moradores, empreendedores, visitantes e instituições. Cada cartão registrou o cenário atual, suas causas prováveis e os impactos reais gerados na ponta da cadeia comunitária.
O processo culminou em um momento de fechamento no qual cada grupo teve a oportunidade de apresentar publicamente seus cartões consolidados. Esse alinhamento final garantiu que a visão de todos os atores estivesse contemplada de forma justa e estratégica, deixando o território plenamente preparado, fortalecido e consciente para as fases seguintes de ideação e desenvolvimento de soluções.
Para quem habita o território, o cotidiano é atravessado por desafios que ferem o sentimento de pertencimento e a qualidade de vida. As famílias enfrentam barreiras que vão desde a precariedade de infraestruturas essenciais como saneamento, eletricidade e mobilidade urbana, até a estagnação econômica decorrente do acesso restrito a crédito e educação financeira para o comércio local. Mais do que limitações materiais, pesa a falta de protagonismo nas decisões públicas, que frequentemente impõem intervenções externas alheias às reais demandas comunitárias. Essa desconsideração histórica, somada aos estigmas sociais, mina a autoestima coletiva, ameaça o direito à privacidade e dificulta a permanência digna das futuras gerações no local que ajudaram a construir.
Por outro lado, quem visita o local se depara com barreiras que encurtam a permanência e enfraquecem a conexão com a potência cultural do morro. A ausência de sinalização clara, falhas de conectividade e a falta de acessibilidade física e estruturas básicas de apoio tornam a circulação um desafio constante, isolando os atrativos. O sentimento de insegurança — alimentado pelo estigma da violência e pela falta de orientação sobre a convivência local — e a escassez de canais oficiais de informação dificultam o planejamento de quem deseja conhecer a região. Por fim, o descompasso na profissionalização e divulgação dos serviços comunitários faz com que o visitante hesite em consumir nos negócios locais, canalizando seus recursos para agências externas e perpetuando a invisibilidade do território fora do circuito turístico tradicional.
O término do workshop de mapeamento deixa como principal legado um diagnóstico preciso e humanizado do território, fortalecido pelo protagonismo dos seus habitantes. Os desafios identificados não são encarados como barreiras intransponíveis, mas sim como a matéria-prima para o desenho de soluções inovadoras e territorializadas.
A convergência entre as dores enfrentadas pelos moradores e as barreiras vividas pelos visitantes desenha o mapa exato de onde a inovação precisa atuar. Ao validar essas perspectivas em conjunto, a iniciativa garante que as próximas fases do programa não entreguem apenas respostas técnicas, mas soluções humanas e integradas. O turismo de base comunitária reafirma, assim, a sua vocação original: ser um motor de inclusão socioeconômica, resgate do pertencimento e celebração do patrimônio vivo das comunidades cariocas.
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